Associação Pesquisa de Aikido

89 anos 042

Quando Kawai Sensei inaugurou o Dojo localizado na Rua das Carmelitas, deu o nome de Academia Paulista de Aikido. E quando recebi o terceiro grau, me tornei o responsável por esta academia. Naquela época, abrir uma academia era muito dispendioso e  fechar era ainda mais. Até para mudar o nome era um sacrifício. No começo quem pagava todas as despesas era a esposa de Kawai Sensei, dona Leticia. Quando Kawai Sensei me encarregou de dirigir o Dojo  eu pedi para um amigo escrivão transferir todos os registros para o meu nome. Inclusive pedi para ser registrado como professor da academia. Acho que na época, era o único instrutor de Aikido registrados em cartório no Brasil. Foi um processo trabalhoso, Kawai Sensei também teve que comparecer em cartório para a transferência. Nessa época eu pagava impostos referentes à minha profissão, impostos da academia e impostos do estabelecimento comercial. Acho que se fosse hoje daria uns RS 3000,00 só de impostos. Certo dia, o Governo do Estado organizou um evento dedicado às artes marciais orientais, no Parque do Ibirapuera, no espaço onde agora é a Bienal. Houveram demonstrações de Judo, Kendo, Kung Fu e Aikido. Nós participamos e levamos nossos próprios tatames. Nesse dia eu nem fui trabalhar. Na hora da apresentação eu pedi à Kawai Sensei que me arremessasse fora dos tatames, no chão duro mesmo, para atrair o público. Isso porque as outras artes marciais chamavam mais atenção. No Aikido fazemos muitas chaves e poucas pessoas conseguem acompanhar, a maioria não sabe o que esta acontecendo. Foi nessa demonstração que Alfredo Palácios, que na época treinava Karate, se apaixonou pelo Aikido. Atraído  principalmente pelo Ukemi que não existe no Karate. Ele ainda pensou por meio ano antes de aparecer na nossa academia. Naquela época treinávamos muitos tipos de Ukemi. Fazíamos 30 minutos só de rolamentos e quedas. Alfredo foi uma pessoa que ajudou nosso grupo enormemente, era desenhista e muito bom projetista e largou tudo para se dedicar ao Aikido. Quando foi ao Japão, conheceu Tohei Sensei e gostou muito de seu modo de praticar Aikido. Voltou para o Brasil profundamente influenciado pelo que tinha visto. Tanto que quando Kawai Sensei saiu da FEPAI me perguntou se eu iria seguir a linha de Tohei Sensei ou continuaria com o Hombu Dojo. Eu disse que era discípulo de Kawai Sensei e o seguiria não importa que caminho seguisse. Eu segui a regra de conduta japonesa em que um aluno sempre segue o seu mestre, mas deixei meus alunos livres para decidirem que caminho seguir. Naquele tempo o presidente do nosso grupo era Julio Hoshiko, que acumulava também o cargo de tesoureiro na FEPAI. Depois de mais ou menos um ano Tohei Sensei se separou do Hombu Dojo e aqui no Brasil Vagner Okino foi nomeado o novo presidente do nosso grupo. Na primeira reunião da diretoria, Vagner explicou a todos que escolheria o mesmo caminho que eu havia escolhido anteriormente e seguiria também o seu mestre. Então todos se desligaram da FEPAI. Julio Hoshiko e sua academia foram os únicos a permanecerem por causa do cargo que ocupava. Quando saímos da FEPAI eu pedi à Kawai Sensei que me permitisse aprovar os alunos até a faixa marrom. Os candidatos à faixa preta eu levaria à Academia Central para prestarem exame diante da banca indicada por ele. Mas nessa época Kawai Sensei me indicou para 5º Dan e me concedeu autonomia para aprovar meus alunos de acordo com os meus critérios. Algum tempo depois o pessoal que praticava Aikido em Curitiba decidiu se ligar à nossa academia. E todos os meses vinham três pessoas para treinar em São Paulo. Assim foi criado o grupo de Curitiba que hoje é ligado à Tohei Sensei. Nessa época Alfredo Palácios resolveu que sairia da nossa organização. Ele morava perto do Parque da Aclimação e começou a dar aulas na sua própria casa, já era famoso nessa época, mais tarde abriu sua própria academia na Rua Vergueiro. Depois de saírmos da FEPAI resolvemos adotar um nome diferente para o nosso Dojo. Tudo mundo deu sua opinião. Eu queria o nome: Associação de Pesquisa do Ki, mas isso provocaria desconfiança no Hombu Dojo, principalmente porque na época Tohei Sensei se desligou por dar ênfase ao Ki no seu método de treinamento. Então sugeri o termo: Associação Pesquisa de Aiki, mas aí me disseram que para o povo brasileiro isso não fazia muito sentido. Só para escolher o nome definitivo – Associação Pesquisa de Aikido – levamos semanas. O logotipo da APA seria formado por dois círculos sobrepostos onde o menor representaria o planeta Terra e o circulo maior que o envolve seria o universo. O ideograma Aiki (合気) sobrepõe o conjunto. A escolha do ideograma de Ki poderia ser (氣), mas optamos por (気), por ter uma grafia mais simples e mais fácil de entender. O ideograma de Aiki teria que se unificar com a Terra e com o Universo, seguindo o que O’Sensei costumava dizer. Essa era a ideia. Então eu e a minha esposa Dayse nos reunimos com um aluno chamado Mauro Sato que foi encarregado de passar essa ideia para o papel. Mas eu não gostei do resultado. Mauro tinha um amigo Designer que trabalhava justamente com a criação de marcas e cobrava uma fortuna das empresas. Ele convidou esse amigo para jantar e no meio da conversa pediu que fizesse um esboço para o nosso Dojo. O resultado ficou muito bom e os diplomas de graduação passaram a levar o logo do nosso grupo. Era um diploma simples, mas muito bonito. A esposa do meu cunhado tinha uma gráfica que prestava serviços para o governo do Mato Grosso do Sul, eram muito competentes e concordaram em fazer os nossos diplomas. Nosso grupo continuou crescendo e chegou um tempo em que a academia localizada na Rua das Carmelitas ficou pequena. Lá não tinha vestiário, quando improvisamos um espaço para os homens e outro para as mulheres trocarem de roupa, a área de tatame ficou ainda menor. O ambiente era muito bom, mas muito pequeno. Eu sabia que os alunos já estavam se sentindo incomodados com a falta de espaço, mas quem sentiu essa necessidade com urgência foi a Daisy, que por conta própria começou a procurar um outro local. Foi ela que encontrou a casa na Rua Paula Ney, onde estamos hoje. Quando eu vi eu não gostei. Casa velha, o pátio no fundo era grande mas muito mal cuidado. Quem construiu essa casa foi o cunhado do governador do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez. Eu continuei procurando e rodei a cidade inteira mas não encontrei. Não encontrei também por falta de dinheiro. Então acabamos ficando com essa casa mesmo. Convidamos o pai do Marcos Yoshino para elaborar o projeto do Dojo. O marido da Ioshico Fuchimi Hannari formou uma equipe de construção e não cobrou nada além do necessário para cobrir os custos de materiais e pagamento dos operários. Eu não entendia nada dessas coisas naquela época, achava que seria só erguer as paredes com tijolo e pronto. Eles não me contrariavam, mas iam me orientando, dizendo que era preciso construir um banheiro, vestiários, portas, essas coisas. O projeto mudou três vezes. Um aluno era diretor de uma firma de cerâmica e conseguiu os tijolos por um preço mais acessível. A construção do espaço em que hoje se encontra o nosso Dojo levou seis meses para ficar pronta e nesse tempo improvisamos as aulas onde hoje funciona a clínica de acupuntura. No começo eu queria trazer os tatames antigos do Dojo das Carmelitas para o novo espaço. Mas como isso não era viável pensei em jogar fora. Um aluno que estava abrindo uma academia em Santana ficou sabendo e levou uma parte dos tatames velhos. Meu genro tinha uma Kombi e levou o resto para jogar no local de descarte da prefeitura. Havia também um aluno que trabalhava na Rede Globo e tinha muitos contatos, foi ele que conseguiu tatames mais baratos. A fabrica ficava no distrito Industrial de Registro. Lá eles faziam do jeito tradicional japonês. Para o novo espaço usamos 100 tatames. No chão temos 60, mas eu queria encostar tatames também nas paredes para minimizar ainda mais o risco de algum acidente. Essa configuração não existe em lugar nenhum, nem no Japão. Só aqui no nosso Dojo e nas academias de quem treinou comigo. Nas Carmelitas tínhamos espelhos nas paredes e queria trazer isso para o novo Dojo. mas aqui o espaço é muito maior. Essa ideia de colocar espelhos na parede eu vi na casa dos clientes, que usavam essa técnica para deixar o ambiente maior. Parece que o espaço dobra de tamanho. Além disso eu sempre tive dificuldade em apontar erro nas pessoas, ficava constrangido em falar dos defeitos. Com os espelhos cada um podia ver onde estava errando. Por causa disso nossa turma ficou com uma técnica muito bonita. A coisa chata é que sempre alguém acaba quebrando um espelho enquanto pratica movimentos de bastão ou espada. É assim. A cada seis meses fazemos uma limpeza geral. A gente costumava forrar o chão debaixo dos tatames com jornal para diminuir a umidade. Até que um dia alguém sugeriu colocar ladrilhos e tudo ficou muito pior. Os tatames começaram a acumular muita umidade. Foi outro aluno que trabalhava com impermeabilização que resolveu esse problema, não apenas no chão mas nas paredes também. A minha preocupação era se isso prejudicaria a prática de Kokyu-Hō, não sabia se o material usado impediria a passagem da energia. Aqui no Dojo da rua Paula Ney as coisas melhoraram muito. Os treinos de Aikido acontecem nos fundos da casa onde trabalho com Acupuntura e por termos um grupo pequeno isso não caracteriza uma agremiação ou clube. Foi bom termos um bom contador e estarmos sempre dentro da lei. Hoje em dia temos o Rubens Kawahara, a Olga Curado, e tantos outros que nos ajudam muito. O senhor Mitsuo Narahashi cuida das documentações. Temos a ajuda de muitos alunos e eu não preciso me preocupar com mais nada, parece que estou no paraíso, antes eu tinha que cuidar de tudo sozinho. Nos treinos de Kokyu-Hō, em meio aos movimentos, eu observo o rosto de cada um e sinto tudo o que acontece ao redor. Um dia perguntei para um aluno se na casa dele não havia uma pessoa passando por dificuldades, e ele disse que não sabia. No dia seguinte me contou que, por causa do comentário, tinha ligado para a família e soube que sua tia havia sido operada. A sensibilidade cresce dessa maneira. Os bons e maus fluidos se tornam perceptíveis. Desde a época das Carmelitas até hoje, eu trato as pessoas com agulha e faço orações. E por causa disso tudo o Dojo vai ficando diferente. Aqui no nosso grupo os alunos permanecem por muito tempo, 10, 20, 30, até 40 anos. Todos padecem do mesmo sofrimento e buscam a mesma coisa.

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