A espada lançada ao mar

Cristina Kawai 016

Eu nunca quis uma espada, nunca sequer pensei em ter uma. Mas então comecei a treinar Aikido, a seguir o Budō. E um dia um senhor japonês que veio ao Brasil e que também treinava Aikido me convidou para conhecer um espadeiro chamado Oda. Eu acompanhei este senhor e Oda-san ficou muito contente com a nossa visita. Mostrou a espada em que estava trabalhando e que era uma encomenda para o governador de São Paulo. De repente perguntou: – Ono Sensei não quer uma espada? Se quiser eu faço uma para o senhor. Bom, eu aceitei: – Quando o senhor tiver um tempo por favor faça uma espada para mim. Mas o que aconteceu foi que ele deixou a encomenda que já tinha começado a fazer, para se dedicar à minha espada. Naquela mesma época havia também um senhor que frequentava o Dojō e se chamava Hyakutake, no Japão ele fazia gravuras em metal. Esse senhor gravou no cabo da espada uma palavra usada no budismo que pede proteção. Depois de pronta, eu fiquei muito feliz. Essa espada me trazia serenidade, eu ficava olhando sua lâmina e me sentia calmo, seu fio cortava folhas de papel com facilidade. Amarrava quatro ou cinco bambus e cortava com um golpe. Em geral uma espada corta um bambu, mas não cinco ou seis amarrados juntos, porque eles se mexem durante o corte. Era uma espada muito boa, mas quanto melhor mais perigosa. O pensamento que me incomodava era que pudesse causar um acidente com meus filhos ou netos. Ter uma espada em casa traz estes riscos. Meu pai também tinha uma espada e quando eu era pequeno, não sei como, mas dizem que empilhei caixas e alcancei essa espada no lugar onde estava guardada, na época tinha três anos e meu pai teve que entregá-la a um templo.

Frequentemente Kawai Sensei visitava a casa de uma vidente chamada senhora Harada. E um dia eu o acompanhei já pensando em pedir pela purificação da minha espada. Quando chegamos em sua casa essa senhora me perguntou: – Ono Sensei tem espada né? Eu tenho. E contei o caso. – Não é o senhor que quer, um antepassado seu é que precisa desta espada. Não sei se esse antepassado era bom ou ruim, mas para se defender matou muitas pessoas, então está sofrendo muito agora. O melhor a fazer é oferecer esta espada para o seu antepassado. É preciso ir até o litoral, fazer uma oração e jogar a espada em alto mar. Eu fiquei pouco mais de um ano com a espada. Fui até a casa de Oda-san, que havia feito a espada com todo carinho para mim, e contei todo o ocorrido. Ainda perguntei se não havia outra espada que pudesse comprar, mas Oda-san disse que no dia mesmo havia vendido sua última espada. Naquela época quase não haviam espadas no Brasil. Então falei para Oda-san que iria oferecer minha espada para o antepassado e não teria mais nenhuma outra. Por isso me vesti com roupas brancas e com o Hakama branco, peguei o Juzu e a espada e fomos até o Porto de Santos. Fomos eu, a senhora Harada, Hyakutake-san, e embarcamos  no navio. Quando lancei a espada ao mar, uma grande onda se formou que quase cobriu o navio. Essa é a única foto minha com a espada que restou.

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