Oração para Kawai Sensei 01

Da esquerda para a direita, Macoto Arai, Hercio Moyses, Elza Mieko Ozawa, Rubens Kawahara, Dayse Yonamine Ono, Keizen Ono, Cristina Kawai, Luiza Kaneko Teramoto, Ricardo Miyajima, Ricardo Rodrigues

Hoje, a doutora Cristina Kawai, filha mais velha de Reishin Kawai Sensei, realizou uma missa íntima em homenagem aos 10 anos do falecimento de seu pai. As orações foram conduzidas por Ono Sensei, que em todos os anos anteriores dedicou o último fim de semana de janeiro para rezar pelo seu mestre no pequeno oratório da família.

Kawai Sensei foi o introdutor do Aikido no Brasil e Ono Sensei foi o sexto aluno a se matricular em seu Dojo.

Oração para Kawai Sensei 02
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No dia 24 de agosto de 2019, foi realizado a cerimônia do Meitoku Yashiki Jorei-Hō em que convidamos o Buda Fukuu Jojyu para se estabelecer no Dojo da Associação Pesquisa de Aikido. Esta é a divindade responsável pela realização de metas inatingíveis. Ou seja, diante de sua presença nada é impossível.

Como Daniel Yuji Ono irá suceder seu pai na condução do Dojo, a presença deste Buda o auxiliará na nova fase que se inicia. Mas o Monge Seiji Hayashi, que conduziu a celebração, também disse que depende dele ganhar virtudes espirituais para que possa se aproximar mais dos Budas e dos espíritos protetores.

Um sinal de que estamos nos tornando mais elevados espiritualmente é o aumento no nível da percepção. Para isso é preciso nos tornarmos mais atentos aos detalhes. Orações, cuidado com a sua conduta e uma vida regrada são práticas diárias que devem ser observadas.

Os amuletos colocados no altar representam a presença de Fukuu Jojyu Nyorai que será a conexão do Dojo com o mundo dos Budas.

Estudio Gangorra-99

Foto: Sabrina Pestana

oração 08

Kawai Sensei faleceu no dia 26 de janeiro de 2010. Todo ano, Ono Sensei e uma pequena comitiva de alunos próximos dedicam uma manhã de orações em visita ao oratório da família, na residência onde Kawai Sensei atendia e morava, no bairro do Jardim Bonfiglioli. A casa fica em frente à Academia Central de Aikido.

Quem nos atendeu foi a filha mais velha de Kawai Sensei, a Dra. Cristina Kawai, que é medica e acupunturista, e hoje mora e trabalha nesta residência.

oração 30

Da esquerda para a direita, Ivan Okuyama, Hércio Moisés Baranda Dias, Cristina Kawai, Keizen Ono, Ricardo Miyajima, Rubens Kawahara.

Foto: Sabrina Pestana

oração 18

Kawai Sensei estudava o significado dos nomes e a força da combinação dos ideogramas japoneses para a vida pessoal e profissional. Por essa razão, descobriu que o nome Munenori Kawai, que usava quando chegou ao Brasil, traria muitos conflitos. Em uma consulta espiritual, foi designado que Reishin Kawai seria o nome mais apropriado para o cumprimento de sua missão de difundir o Aikido no Brasil.

Seguindo essa mesma premissa, seu mais antigo discípulo: Kenji Ono, teve o nome mudado primeiramente para Josen K. Ono e depois para Keizen Ono, como ficou conhecido no mundo do Aikido.

Foto: Sabrina Pestana

Seiza 024

Kawai Sensei tinha um corpo muito bem condicionado para as artes marciais. Era forte e flexível. Mas as pessoas que iniciavam no Aikido, principalmente nós brasileiros, tínhamos o corpo mais rígido e eu sentia falta de alguns exercícios que preparassem nosso corpo para o treinamento. Então pedi a Kawai Sensei que nos passasse alguns exercícios antes do treino.

Mas ele apenas anunciou para a classe: – Ono san irá começar o treino!

Incumbido dessa responsabilidade eu pesquisei a ginástica usada no Judo, Jujutsu e Yoga, também consultei vários livros e elaborei uma série de exercícios que nos ajudasse a soltar o corpo. A partir daí a ginástica foi incorporada ao treinamento de Aikido. Eram cerca de 50 minutos de alongamentos, torções e fortalecimento muscular. O que deixou o treino com 2h de duração.

Nota: Tradicionalmente as aulas de Aikido contam apenas com um breve aquecimento. A aula regular do Doshu Moriteru Ueshiba, no Aikikai Hombu Dojo, tem exatamente uma hora de duração.

Flyer · Editora Bueno

 

Biografia de Keizen Ono Shihan mostra os aspectos filosóficos e espirituais do Aikido

Aos 92 anos de idade e ainda ministrando aulas quase diariamente, Ono Sensei é o mais renomado praticante de Aikido do Brasil

Nascido em Tóquio, no dia 01 de outubro de 1925, Kenji Ono (o nome Keizen foi dado pelo seu mestre após anos de treino de Aikido) desembarcou com sua família no Porto de Santos aos 9 anos de idade. Desde cedo interessado pelo Budo japonês, ficou sabendo da existência do Aikido antes mesmo que a arte chegasse ao Brasil. No início da década de 60, quando Reishin Kawai fundou o primeiro Dojo de Aikido da América do Sul, foi o sexto aluno a se matricular e nunca mais parou. Hoje, aos 92 anos, é o mais antigo e graduado mestre desta arte no país.

Com uma trajetória peculiar, direcionou sua pesquisa para o estudo do Ki, ou seja, da energia vital que permeia todas as coisas e que ao ser desenvolvida permite ao praticante aplicar técnicas muito potentes sem o uso da força física. Desta maneira, embora franzino e com idade avançada, facilmente derruba pessoas muito maiores e com até o dobro de seu peso. O método de ensino do Aikido transmitido por Ono Sensei enfatiza o desenvolvimento do Ki e valoriza os exercícios de respiração.

Escrito a partir de transcrições das histórias que o próprio Sensei conta a seus alunos mais próximos, o livro Keizen Ono – Aikido em sua essência, retrata a busca de Ono Sensei para alcançar as camadas mais profundas do Aikido e da jornada espiritual que possibilitou este entendimento.

Arquivo Família 082

Da esquerda para direita: Sumiko (com o Violino), o caçula Seiji, Tereza Mioko (com o Bandolim Clássico), Kenji Ono (com o Violão) e Takashi.

Arquivo Família 109

Quando ao certo Ono Sensei começou a sentir dor, nós não sabemos, só desconfiávamos que havia algo errado porque começou a mancar muito e porque de noite ele gemia enquanto dormia. Então começamos a perguntar, perguntar, mas só depois de anos ele contou para um aluno que o quadril o estava incomodando. Mas também foi só isso que disse. Começamos a procurar vários médicos e descobrimos que o Sensei estava com essa artrose muito grave, com a articulação entre  fémur e quadril já toda desgastada. Os médicos indicaram a cirurgia, mas o Sensei recusou porque se fizesse não poderia mais ficar em seiza. Três ou quatro médicos foram procurados e todos foram categóricos em dizer que seria impossível voltar a sentar em seiza. Ono Sensei disse que então preferia ficar mancando. As primeiras radiografias ainda mostravam um pedacinho da cabeça do fémur, mas como se passaram anos de recusa em fazer a cirurgia, o estado se agravou e a cabeça já tinha se desgastado por completo. O aluno a quem Ono Sensei confidenciou que sentia desconforto, Dr. Takashi, era médico ortopedista e pediu uma última chance para que pudesse apresentar um especialista, para ouvir sua opinião a respeito do caso. Ono Sensei concordou em ouvir mais uma opinião e foi para a consulta. Sentou-se em seiza sobre a maca e disse que era essa a postura que não poderia perder de jeito nenhum. O Dr. Emerson Honda, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia, disse que era possível recuperar este movimento, contanto que usassem uma prótese importada, que possui muito mais variações de tamanho e era feita de um material de melhor qualidade. Com a garantia de que voltaria a sentar-se em seiza, Ono Sensei aceitou ser operado.

Por eu ser também da área médica, eles me permitiram acompanhar todo o processo, e no dia da cirurgia, logo após fazerem a radiografia, me chamaram para dizer que talvez não conseguissem deixar a perna com o mesmo tamanho da outra. Porque com 13cm, era a maior distancia que ele, um especialista, já tinha visto em uma cirurgia deste tipo. O começo foi difícil porque a equipe não estava conseguindo nem luxar a articulação. Para executarem o procedimento era preciso desencaixar o fémur do quadril. Eles deveriam puxar a perna para baixo e jogar o fêmur desencaixado para fora, para só então serrar o osso e fixar a prótese. Mas a musculatura estava tão forte que eles não estavam conseguindo, disseram que estava pior que jogador de futebol. Eles perguntaram para mim o que estava acontecendo e eu disse que o Sensei havia dado aula na véspera.

A cabeça do fémur ele já não tinha mais, o desgaste era tão acentuado que os médicos não sabiam como ele ainda andava. Com a metade da cabeça do fémur comprometida a pessoa já vai para a cadeira de rodas.

Após a cirurgia, o doutor me deu a ótima notícia que as duas pernas estavam do mesmo tamanho, mas não saberia se ele iria mancar ou não. Oito horas depois, quando o Sensei acordou, já começou a andar sozinho pelo quarto. E poucos dias depois ele começou a ir escondido para o Dojo. Eu mesmo o peguei treinando escondido e fui falar com o médico, que suspendeu a fisioterapia temendo um excesso de carga.

Os médicos achavam que depois de cinco ou seis anos precisariam trocar a prótese ou fazer ajustes. Mas até agora, passados onze anos, não houve nenhum desgaste e tudo está normal. Este é um caso de estudo internacional. O Dr. Honda apresenta este como um caso de sucesso tanto no procedimento cirúrgico como na recuperação, porque em menos de três meses o Sensei voltou a dar aulas de Aikido. Ele pediu a nossa autorização para ficar com as radiografias, para que pudesse expôr o caso em congressos. Este renomado médico nunca tinha feito uma operação desta gravidade.

Hoje em dia, Ono Sensei não manca mais por causa do quadril. É por outro motivo. O joelho dele já não tem mais cartilagem e a cada dia o desgaste aumenta, comprometendo a movimentação. Ono Sensei se recusa a operar porque desta vez até o Dr. Honda disse que ele não poderá mais se ajoelhar. Ono Sensei prefere sentir dor o dia inteiro do que deixar de ficar em seiza. São escolhas…

Karina Ono

Fujita 014

O desenvolvimento no aprendizado do Aikido é acumulativo. O praticante se propõe a treinar e um dia, como se tudo o que havia recebido chegasse ao seu limite, acontece um salto evolutivo. A partir desse momento o movimento muda completamente.

Mogi 003

A prática do Aikido é uma arte de maestria, em que contam como seus elementos inerentes a existência de um caminho, de um mestre e um discípulo. O caminho está em uma verdade que atravessa o tempo e é passada através de gerações de seguidores. Mestre e discípulo são posições ocupadas por quem segue pelo mesmo caminho mas que se encontram em momentos diferentes, e por mais que haja muitos discípulos para um único mestre, a transmissão é feita sempre de espírito para espírito. Quem é tocado por uma verdade muda seu jeito de agir e tem seu corpo transformado dia a dia, para que possa abrigar o espírito maior que acompanha a sua senda. A deidade que acompanha o fundador do Aikido recebe o nome de Ame-no-Murakumo-Kuki-Samuhara Ryu-O Jin, o Rei Dragão, que tem seu templo dedicado na cidade de Osaka e pode ser sentido com maior intensidade no dia 23 de cada mês. Nós, aikidoístas, seguimos pelo mesmo caminho do fundador da nossa arte e buscamos a unificação do nosso ser com o Universo. E por ser Arte, abriga em si todas as culturas e religiões, todas as formas de pensar e todos os ângulos de visão para este mundo, porque a energia que permeia o movimento dentro da nossa prática é a mesma da criação de tudo que existe.