Arquivo Família 082

Da esquerda para direita: Sumiko (com o Violino), o caçula Seiji, Tereza Mioko (com o Bandolim Clássico), Kenji Ono (com o Violão) e Takashi.

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Arquivo Família 109

Quando ao certo Ono Sensei começou a sentir dor, nós não sabemos, só desconfiávamos que havia algo errado porque começou a mancar muito e porque de noite ele gemia enquanto dormia. Então começamos a perguntar, perguntar, mas só depois de anos ele contou para um aluno que o quadril o estava incomodando. Mas também foi só isso que disse. Começamos a procurar vários médicos e descobrimos que o Sensei estava com essa artrose muito grave, com a articulação entre  fémur e quadril já toda desgastada. Os médicos indicaram a cirurgia, mas o Sensei recusou porque se fizesse não poderia mais ficar em seiza. Três ou quatro médicos foram procurados e todos foram categóricos em dizer que seria impossível voltar a sentar em seiza. Ono Sensei disse que então preferia ficar mancando. As primeiras radiografias ainda mostravam um pedacinho da cabeça do fémur, mas como se passaram anos de recusa em fazer a cirurgia, o estado se agravou e a cabeça já tinha se desgastado por completo. O aluno a quem Ono Sensei confidenciou que sentia desconforto, Dr. Takashi, era médico ortopedista e pediu uma última chance para que pudesse apresentar um especialista, para ouvir sua opinião a respeito do caso. Ono Sensei concordou em ouvir mais uma opinião e foi para a consulta. Sentou-se em seiza sobre a maca e disse que era essa a postura que não poderia perder de jeito nenhum. O Dr. Emerson Honda, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia, disse que era possível recuperar este movimento, contanto que usassem uma prótese importada, que possui muito mais variações de tamanho e era feita de um material de melhor qualidade. Com a garantia de que voltaria a sentar-se em seiza, Ono Sensei aceitou ser operado.

Por eu ser também da área médica, eles me permitiram acompanhar todo o processo, e no dia da cirurgia, logo após fazerem a radiografia, me chamaram para dizer que talvez não conseguissem deixar a perna com o mesmo tamanho da outra. Porque com 13cm, era a maior distancia que ele, um especialista, já tinha visto em uma cirurgia deste tipo. O começo foi difícil porque a equipe não estava conseguindo nem luxar a articulação. Para executarem o procedimento era preciso desencaixar o fémur do quadril. Eles deveriam puxar a perna para baixo e jogar o fêmur desencaixado para fora, para só então serrar o osso e fixar a prótese. Mas a musculatura estava tão forte que eles não estavam conseguindo, disseram que estava pior que jogador de futebol. Eles perguntaram para mim o que estava acontecendo e eu disse que o Sensei havia dado aula na véspera.

A cabeça do fémur ele já não tinha mais, o desgaste era tão acentuado que os médicos não sabiam como ele ainda andava. Com a metade da cabeça do fémur comprometida a pessoa já vai para a cadeira de rodas.

Após a cirurgia, o doutor me deu a ótima notícia que as duas pernas estavam do mesmo tamanho, mas não saberia se ele iria mancar ou não. Oito horas depois, quando o Sensei acordou, já começou a andar sozinho pelo quarto. E poucos dias depois ele começou a ir escondido para o Dojo. Eu mesmo o peguei treinando escondido e fui falar com o médico, que suspendeu a fisioterapia temendo um excesso de carga.

Os médicos achavam que depois de cinco ou seis anos precisariam trocar a prótese ou fazer ajustes. Mas até agora, passados onze anos, não houve nenhum desgaste e tudo está normal. Este é um caso de estudo internacional. O Dr. Honda apresenta este como um caso de sucesso tanto no procedimento cirúrgico como na recuperação, porque em menos de três meses o Sensei voltou a dar aulas de Aikido. Ele pediu a nossa autorização para ficar com as radiografias, para que pudesse expôr o caso em congressos. Este renomado médico nunca tinha feito uma operação desta gravidade.

Hoje em dia, Ono Sensei não manca mais por causa do quadril. É por outro motivo. O joelho dele já não tem mais cartilagem e a cada dia o desgaste aumenta, comprometendo a movimentação. Ono Sensei se recusa a operar porque desta vez até o Dr. Honda disse que ele não poderá mais se ajoelhar. Ono Sensei prefere sentir dor o dia inteiro do que deixar de ficar em seiza. São escolhas…

Karina Ono

Fujita 014

O desenvolvimento no aprendizado do Aikido é acumulativo. O praticante se propõe a treinar e um dia, como se tudo o que havia recebido chegasse ao seu limite, acontece um salto evolutivo. A partir desse momento o movimento muda completamente.

Mogi 003

A prática do Aikido é uma arte de maestria, em que contam como seus elementos inerentes a existência de um caminho, de um mestre e um discípulo. O caminho está em uma verdade que atravessa o tempo e é passada através de gerações de seguidores. Mestre e discípulo são posições ocupadas por quem segue pelo mesmo caminho mas que se encontram em momentos diferentes, e por mais que haja muitos discípulos para um único mestre, a transmissão é feita sempre de espírito para espírito. Quem é tocado por uma verdade muda seu jeito de agir e tem seu corpo transformado dia a dia, para que possa abrigar o espirito maior que acompanha a sua senda. A deidade que acompanha o fundador do Aikido recebe o nome de Ame-no-Murakumo-Kuki-Samuhara Ryu-Ō Jin, o Rei Dragão, que tem seu templo dedicado na cidade de Osaka e pode ser sentido com maior intensidade no dia 23 de cada mês. Nós, aikidoístas, seguimos pelo mesmo caminho do fundador da nossa arte e buscamos a unificação do nosso ser com o Universo. E por ser Arte, abriga em si todas as culturas e religiões, todas as formas de pensar e todos os ângulos de visão para este mundo, porque a energia que permeia o movimento dentro da nossa prática é a mesma da criação de tudo que existe.

Paulista 014

Os lugares que eu frequentava quando criança agora não existem mais. Em Tokyo tudo mudou, mas acho que a casa de meus pais ficava no bairro de Mabashi (馬橋). Pelo menos há ainda uma estação de trem com esse nome.

As duas filhas de um primo do meu pai se casaram com dois irmãos, herdeiros do banco Sumitomo. Quando eu fui ao Japão e aproveitei para visitar a minha tia, irmã mais nova de meu pai, ela perguntou se eu queria visitar essas moças que afinal eram também minhas parentes. Mas eu não fui. Fiquei com receio de visitá-las pois estavam tão bem de vida e eu sem nem onde amarrar o meu burro. O que elas iriam pensar?

Quando alguém vem do Brasil e tem cara de japonês, eles pensam que a gente é dekasegi.

Na época, eu tinha acabado de receber o 7º Dan de Aikido, mas para essas coisas as pessoas em geral não dão muito valor. Quem dava muita importância para isso era o meu tio, que trabalhava como instrutor de Kendo na polícia e já tinha pertencido a guarda imperial. Ele me apresentou para seus filhos e disse: – Esse seu primo não frequentou escola nenhuma e ainda assim se tornou um shihan. Ele falou de mim com muito orgulho e eu fiquei um pouco sem graça. Ainda mais porque o filho mais velho se formou em direito com louvor e tinha acabado de se casar com a filha de um médico famoso. O filho mais novo também cursava direito e seguia os passos do irmão. E o meu tio me comparando com eles, falando como se o título de Shihan fosse algo muito mais importante que tudo.

Eu me lembro que na minha época de criança, ainda no Japão, o meu pai não me deixava brincar com as outras crianças. Ele não queria que eu me misturasse. Com meus irmãos era completamente diferente, eles podiam fazer tudo. Primeiro filho é assim. E no final, de todos, eu fui o único que não fiz uma faculdade. Todos estudaram no Brasil, em escolas normais, para brasileiros, e por isso nem falavam mais japonês. Eu só tenho uma única irmã que fala um pouco de japonês e isso porque eu mesmo ensinei.

06

A arquitetura de um Dojo (道場) é inspirada nos templos e santuários japoneses. O próprio termo é de origem Zen Budista e pode ser entendido como o Lugar do Caminho, ou o local de busca pela iluminação. Por volta da metade do século XVI, a arquitetura dos castelos expandiu acompanhando o aumento do poder econômico dos Daimyōs (大名), os poderosos proprietários de terras que governavam a maior parte do país. Com isso, muitos castelos passaram a incluir Dojos de Artes Marciais em seus projetos, para treinamento e instrução da guarda.

O Kamiza (上座) é a parte mais importante da construção, localizado na parede frontal do Dojo. O lado oposto é onde normalmente se localiza a entrada e recebe o termo Shimoza (下座). O lado direito é considerado a lateral superior e o esquerdo a lateral inferior.

No passado, a arquitetura do Dojo tradicional e a etiqueta a ela associada, posicionando o Sensei à frente, os mais antigos à direita e os mais jovens à esquerda, permitia ao instrutor, que era a pessoa mais importante do recinto, o máximo de proteção contra intrusos. No Japão, com sua longa história de guerras, muito do que se denomina etiqueta está relacionado com preocupações de combate. A estratégia principal envolve a proteção do instrutor e não necessariamente de todo o grupo. Em segundo lugar, o posicionamento mantinha em sigilo as explicações do Mestre contra o olhar furtivo de alguém que tentasse observar através da porta de entrada do Dojo, que ficava ao fundo.

Jundiaí 025a

Nos exercícios de Kokyu-Hō estamos preparando o nosso corpo para que seja possível  sentir o espaço que nos envolve. Quando inspiro, penso que estou absorvendo o Dojo inteiro para o meu Tanden. O ar se torna palpável porque eu o sinto. E isso é possível pois, através de exercícios, estamos formando novas conexões neuronais responsáveis por essa função. A imagem do universo, e coisas grandiosas assim, nós esprememos na palma da mão e essa bola de energia que se forma é que comanda o nosso movimento. Com o meu braço eu não consigo levantar outra pessoa. Mas eu ergo a bola de energia e o parceiro me acompanha.

É por isso que quem faz Kokyu-Hō não pode ter pensamentos negativos, porque acabamos absorvendo tudo para dentro de nós.

2015 Dezembro - São Paulo 223

Meu nome é Toshihiro Kabasawa (椛沢聡宏) e nasci na cidade de Izukashi, em Fukuoka, Japão. Meu sonho era me tornar fazendeiro no Brasil e para isso fiz um curso de capacitação em um programa para imigrantes oferecido pelo governo japonês. Cheguei neste país em janeiro de 1981, com 23 anos, e fui para uma cidadezinha que ficava cerca de 40 Km distante do Belém do Pará. Plantei mamão Papaya e Dendê. Na verdade queria plantar Pimenta do Reino, mas acabei ficando apenas um ano na lavoura. Não deu certo, seria preciso muito capital para que pudesse me tornar um fazendeiro de verdade.

No ano seguinte, vim para São Paulo morar com um amigo no bairro da Saúde. Queria voltar a treinar Judo e aproveitar minha graduação de 3ºDan para dar aulas e com isso ganhar a vida na capital paulista. Eu me encontrei com o primeiro medalhista olímpico de Judo, Chiaki Ishii, que trouxe o Bronze  para o Brasil em 1972, nos jogos de Munique. Ele tinha um Dojo no Bairro da Liberdade e tratou logo de me fazer mudar de ideia. Disse que viver de Judo no Brasil era bem complicado e me aconselhou a seguir outro caminho.

Então, o patrão do meu amigo me indicou para estudar e trabalhar com massagem e acupuntura em uma clinica no Rio de Janeiro. Eu aceitei a proposta e passei os anos de 1982, 83 e 84 exercendo esse novo oficio. Depois voltei para São Paulo já pensando em abrir uma clínica própria. Expus esse meu desejo e um amigo apresentou um professor de massagem que me convidou para trabalharmos juntos em Vitória, na Praia do Canto. Esse professor já estava meio doente e aos poucos foi transferindo seus pacientes para mim. Mesmo depois de seu falecimento, eu continuei com o trabalho que fazíamos e permaneço até hoje no mesmo local.

Conhecendo o Aikido

Eu sempre gostei muito de lutar, mas não conseguia me imaginar em um ringue de Boxe depois de velho. Meu desejo sempre foi o de encontrar um Budo que pudesse ser praticado a vida toda, e por isso mesmo me impressionei quando vi Sano Sensei pela primeira vez. Fiquei admirado com aquele senhor que aparentava ter uns 60 anos, conduzindo seus alunos, maiores e mais fortes, de forma tão suave. Foi no ano de 1991 que entrei para o Aikido. Depois ainda soube que Sano Sensei estava com quase 80 anos nessa época.

Sano Sensei começou a ensinar Aikido primeiro para seus netos. Roberto Rabello de Souza foi o primeiro aluno a entrar para sua turma, que mais tarde passou a contar também com Fábio Alcântara Collato, seguido de José Maria Santos e Alexandre Stange. Marcos do Val, que se tornou policial e hoje faz parte do CATI, entrou um mês antes de mim.

O primeiro contato com a APA

No final de 1992, fiz exame para faixa roxa no Dojo de Ono Sensei, em São Paulo. Nessa ocasião conheci o mestre de meu mestre. Um dos alunos mais graduados do Dojo, Vagner Okino, me chamou a atenção dizendo que as quedas do Judo e do Aikido são diferentes. Eu nunca vou me esquecer disso e até hoje repito a mesma coisa para os meus alunos.

Começando a dar aula

Eu faço parte da primeira geração de Yudansha do Espírito Santo. Sano Sensei havia falecido poucos dias antes da nossa graduação e por isso, já em 1996, comecei a dar aulas no local onde funcionava a antiga ASCAI. Era uma vontade de Sano Sensei que a nossa região não ficasse sem Aikido. Juntamente com meu amigo Thomas Yamashita do Judo e  Nilson, professor de Karate, criamos a União de Artes Marciais, Karate – Judo – Aikido.

Algum tempo depois, Tomas Yamashita faleceu e o Nilson foi para os Estados Unidos. Quando eu fiquei sozinho criei a Seibukai em 2004.

A energia presente no Aikido

A primeira oportunidade que tive de presenciar a energia que faz parte do Aikido, aconteceu em um treino no Dojo de São Paulo. Ono Sensei passou a técnica do Shomen Uchi Dai Ikkyo e eu estava treinando com Macoto Arai, um colega bastante avançado. Eu ataquei com tudo e antes de haver qualquer contato, fui para o chão. Eu me assustei. Foi nesse momento que descobri que havia algo mais além da técnica. Eu agradeço a Sano Sensei por ter me iniciado no Aikido e agradeço a Ono Sensei por desenvolver este método de Kokyu-Ho. Sei que existe algo extraordinário sendo desenvolvido, e que Ono Sensei progride rapidamente, mas o nosso grupo também esta trabalhando duro. Não é fácil. Eu sempre digo para o meu grupo que apesar de Ono Sensei estar em um nível bem acima, nós também estamos caminhando. Para isso treinamos.

Fudō Myō–Ō 015

Eu nunca soube seu primeiro nome, mas Hyakutake (百武) foi um antigo aluno meu que acabou se tornando um grande amigo. Na verdade esse era um sobrenome famoso no Japão, que pertencia ao camareiro-mor do Imperador Hirohito.

No Japão, onde nasceu, Hyatutake-san era um artista que trabalhava com gravura em metal. Não sei os motivos que o trouxeram para o Brasil, mas sei que teve uma vida difícil. Sua esposa faleceu no momento do nascimento de sua filha e ele passou a criá-la sem a ajuda de ninguém. Ainda bebê, a menina sofreu um acidente estranho, caiu do berço, coisa que não costuma acontecer, e isso a deixou com sequelas pela vida toda. Sua filha tinha a mesma idade que a minha, mas faleceu aos 7 anos. Seu filho foi para o Japão para se ordenar monge. Quando voltou para o Brasil, sofreu um acidente de carro no caminho do aeroporto até sua casa, morrendo no local. Hyakutake-san já era uma pessoa religiosa, mas com tudo isso se tornou ainda mais.

Um dia sentiu a necessidade de esculpir imagens de santos. Só uma pessoa espiritualizada sente este tipo de inspiração. Foi ele que produziu a grande estátua de Fudō Myō-Ō Sama (不動明王), do Templo Nambei Shingon-Shu Daigozan Jomyoji, de Suzano. E a partir desta mesma madeira ele esculpiu as imagens de Fudō Myō-Ō Sama que tanto eu como Kawai Sensei guardamos em nossos altares.

Ele também esculpiu uma imagem de Daikokuten (大黒天) para mim. Eu pretendia colocá-la no Dojo, mas ele disse que esse tipo de divindade, que é celebrada por trazer fortuna e prosperidade, precisava ficar em casa, junto com a família, e assim eu fiz. Mas um dia, minha irmã passou em casa e levou a imagem embora. Hyakutake ficou sabendo e tratou logo de produzir outra imagem. Dessa vez me presenteou com uma máscara de madeira de Kannon-Sama (観音), que representa a suprema compaixão de todos os Budas. Quando minha filha Karina se mudou de casa, levou essa imagem com ela.

Quando o conheci no Dojo, eu não sabia nada sobre essa sua inclinação religiosa. Ele era uma pessoa muito discreta e não falava sobre isso. Treinava pouco também, apenas duas vezes por semana. Mas adorava o ambiente do Dojo, gostava muito dos ensinamentos filosóficos e sempre vinha conversar comigo. Um dia ele trouxe um livro para mim, disse que havia gostado muito e recomendou que eu lesse também. Quando vi a capa, soube que eu mesmo já havia comprado esse livro, mas ainda não tinha lido. Era o livro do fundador do Agon Shu, Seiryu Kiriyama, que falava a respeito da transformação do corpo e alma.

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No coração do Aikido está o Sankai-Aiki. Dentro do ambito religioso é o que nos une aos nossos antepassados e aos nossos descendentes. A união dos que vieram antes, dos que virão depois e de nós hoje é o significado de Sankai. Aiki é a energia que permeia as três gerações. A nossa função é unificar essa energia. Sankai-Aiki é também a materialização do nosso corpo com o Céu e a Terra. A energia do Universo, da Terra e da nossa vida. A busca pela unificação dessa energia é Sankai-Aiki. Essa não é apenas uma busca dos que praticam Aikido, mas da humanidade como um todo. É o movimento para nos purificar e nos aproximar de Deus. Nós estamos treinando isso  nos exercícios de Musubi Aiki Kokyu-Hō.